O que é moda sustentável?

Eu não sou nenhum especialista em moda sustentável. Na verdade, entendo bem pouco… E acho que essa é uma deficiência que precisa ser corrigida em breve. Mas, de qualquer forma, sabe o que eu acho uó? Ver colegas de profissão usando três ou quatros discursinhos prontos e rasos pra falar de sustentabilidade e, o que é pior, sair comprando qualquer ideia de “marca sustentável” que algumas grifes – com a ajuda das assessorias de imprensa – saem vendendo por aí.
Tenho uma amiga repórter de uma respeitada revista sobre sustentabilidade – a “Página 22″, ligada à Fundação Getúlio Vargas – que simplesmente não conseguiu entrevistar alguns nomes, considerados pela imprensa especializada como exemplos de sustentabilidade na moda brasileira, para uma grande matéria que ela está preparando sobre o assunto. Para que os sites e revistas de moda citem parcerias ínfimas e sazonais (do tempo de uma coleção) com um pequeno grupo de bordadeiras de sei lá da onde, as marcas fazem de um tudo. Agora, pra falar sério, elas somem.
E a imprensa de moda muitas vezes corrobora com tudo isso, dando espaço pra notícias sem muita relevância e tratando-as como grandes ações verdes. Por puro despreparo, eu acho. Sei lá, é apenas um pensamento que ocorreu cá com meus botões. Gostaria, agora, de saber a opinião de vocês sobre o assunto. E pra terminar, deixo aqui um texto de uma pesquisadora da Columbia University, a Carolina Murphy, sobre “o que é moda sustentável”. Achei interessante e pertinente.
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 Isso que é moda verde
 
“Sabe aquela camiseta de algodão natural do seu armário que traz geralmente uma mensagem amigável, insígnia de banda de rock ou política? Na verdade, a camiseta pode ser a roupa mais ambientalmente tóxica que você possui. E no Brasil cerca de 450 milhões de peças de camisetas são produzidas por ano. De acordo com estudo do IISD (Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável), para confeccionar uma camiseta de 250 gramas, na China, utiliza-se, em média, 160 gramas de agrotóxicos. Uma pesquisa do Departamento Agrícola dos Estados Unidos aponta ainda que cerca de um terço dos pesticidas e fertilizantes produzidos no mundo são pulverizados sobre o algodão.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que 25% dos inseticidas produzidos mundialmente são utilizados na plantação do algodão e quase metade deles são extremamente tóxicos. O Aldicarbe (ou Temik 150) é, por exemplo, o segundo pesticida mais utilizado na produção de algodão mundial e apenas uma gota dele, absorvida pela pele, é suficiente para matar um adulto. Levantamento do IISD em conjunto com o Centro para Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente da Academia Chinesa das Ciências Sociais de Beijing revela que o algodão está no topo da lista de produtos que precisam de controle ambiental. Isso porque a água, os agrotóxicos utilizados no cultivo de algodão, os resíduos deixados nos rios e os restos despejados em aterros fazem com que o ciclo de vida da sua humilde camiseta de algodão tenha deixado um rastro ecológico gigantesco.
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 Algodão está no topo da lista de produtos que precisam de controle ambiental
 
Isso explica por que celebridades, como Jason Mraz, apareceram nos Grammys usando ternos de plástico reciclado. Mas o movimento de “ecologização” da indústria da moda levanta uma pergunta ainda mais relevante: o que seria a moda sustentável? Para encontrar respostas coerentes e práticas seria necessária a opinião de profissionais do lado menos atraente da indústria da moda, como pesquisadores ambientais e engenheiros de produção especializados na fabricação de tecidos, envolvidos em estudos de impacto ambiental.
Para desenvolver uma peça de roupa verdadeiramente orgânica que não seja financeiramente exorbitante, designers, estilistas e consumidores de moda, precisam trabalhar em conjunto com profissionais especializados em gestão de sustentabilidade. No entanto, para ser qualificado como orgânico, o algodão ou lã precisam passar por inspeções e processos sofisticados para não serem tocados por produtos químicos e substâncias tóxicas. Mas a indústria têxtil mundial encontra grande dificuldade para definir os padrões de qualidade mínimos necessários à criação de um produto realmente orgânico e sustentável.
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 Jason Mraz e seu “eco-tux” feito com garrafas pet recicladas
 
No Brasil, diversos produtores da Paraíba já trabalham com a IFOAM (International Federation of Organic Agriculture Movements) para atender à legislação referente a produtos orgânicos da Comunidade Européia e dos Estados Unidos. Em 2007, cerca de 7.500 hectares nos Estados Unidos foram dedicados à safra de algodão orgânico. E programas como o “North American Organic Fiber Processing Standards” já estão se popularizando junto à indústria da moda.
De acordo com as projeções do DataMonitor, o mercado varejista de vestuário no bloco BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) deverá chegar a US$ 253,6 bilhões em 2013. Por ser o principal produtor e importador de algodão cru e o maior exportador de tecidos de algodão e vestuário acabado do mundo, a indústria têxtil chinesa tem grandes interesses neste novo cenário. Sendo assim, ela já está se organizando para estabelecer requisitos necessários à obtenção de escala na cadeia de produção de roupas orgânicas. Sua cadeia produtiva já passou por danos que precisam ser resolvidos. O avanço do vasto deserto de Takla Makan, por exemplo, cujas dunas engoliram cidades inteiras e apavoram os moradores dos subúrbios de Beijin, tem sido associado à produção industrial do algodão em larga escala na província árida de Xinjiang ocidental.
Além da indústria têxtil, o universo da moda também está se mobilizando. No mês passado, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, em Genebra, realizou a EcoChic: um desfile de moda sustentável, em que designers conhecidos criaram peças de fibras naturais fabricados de forma mais sustentável. Em fevereiro de 2010, na Fashion Week de Londres, a exposição “Estethica” foi dedicada à moda ecologicamente sustentável. Em março de 2010, o Fashion Institute of Technology em Nova York, uniu forças com a Universidade de Delaware e com a escola de design Parsons para montar uma exposição de moda sustentável, intitulada “Passion for Sustainable Fashion”, na qual os estudantes criaram roupas com matérias de origem ética e matérias-primas ecologicamente neutras.
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 Desfile de uma das marcas participantes do “Esthetica”, dedicada à moda ecologicamente sustentável, durante a Semana de Moda de Londres
 
Outra alternativa seria o processo de reaproveitamento de produtos descartados como o Upcycling, do qual o terno de Jason Mraz é um bom exemplo. O problema é descobrir como fazer o Upcycling em escala comercial. O importante é a conscientização de que sustentabilidade não se trata de modismos passageiros e sim de um assunto que deve ser abordado de forma coerente e séria.”
                                   Carolina Cabral Murphy é pesquisadora da Columbia       University e fundadora da MicroEmpowering.Org com sede em Nova York (EUA)
                                   e-mail: acm2134@columbia.edu

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